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Rebeubeu, Pardais ao ninho

Rebeubeu, Pardais ao ninho

Abril 02, 2020

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Quando me mandaram trabalhar em casa, pensei que isto ia ser fácil. Gosto de estar em casa e gosto de trabalhar em casa.

Entrei em modo funcional e produtivo. Tinha mudado de casa uma semana antes, havia livros para pôr nas prateleiras, loiças para guardar nos armários, colchas e lençóis para dobrar nas gavetas. No trabalho também se criaram novos projetos para garantir um serviço aos que dele precisem. Os meus dias passaram a ser mais longos, a ter mais horas. O tempo e a energia a chegarem para tudo.

Já as minhas noites passaram a ser mais curtas. Os olhos passaram a abrir sempre antes do despertador. As pessoas à minha volta que são de risco e que me assaltavam a mente, sempre, antes de dormir. Os avós, os pais, o irmão, os amigos. De repente, somos todos de risco. Ou somos muitos mais do que imaginávamos.

Não há um dia em que, nem que seja só por um milésimo de segundo, não pense que estou infetada. Porque tossi, porque espirrei, porque me dói o corpo das noites mal dormidas. No meu caso, as mudanças e a minha alergia ao pó não ajudam, mas desconfio que essa é apenas uma desculpa. Se não fosse nada disso, até poderia ser a unha do pé. Todos os dias, nem que seja por um milésimo de segundo, perguntar-me-ia se estarei infetada e não sei.

Deixei de conseguir ler. As letras deixaram de fazer sentido entre elas. Deixei de conseguir ver séries. São demasiadas as distrações. Grupos de whatsapp, houseparties e notícias. Notícias e mais notícias que sabem àquele refrigerante com demasiado açucar e que dá uma falsa sensação de matar a sede. Minutos depois, a boca sedenta, pede mais e mais.

Ao décimo quarto dia desta quarentena, quebrei. Faltou-me a energia, gretou-se-me a pele nas mãos infinitivamente lavadas e eu quebrei.

Percebi que estar em casa não é difícil. Difícil é o que se deixa lá fora. Porque o que está fora é invisível e, pior, está no meio de nós.

 

 

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