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Rebeubeu, Pardais ao ninho

Rebeubeu, Pardais ao ninho

Janeiro 23, 2020

A que horas chegas?.jpg

Estive 15 anos solteira e quando se está tanto tempo sozinha todos querem ajudar, todos têm um conselho a dar. Talvez porque tenham receio que haja algum problema connosco, talvez porque veem ali uma oportunidade para que não cometamos os mesmos erros, talvez um pouco das duas coisas. Ouvi muitas coisas. Desde o que eu deveria ser, não ser, melhorar ou camuflar, até ao que devia procurar. Escolhe bem, diziam-me. Que seja fiel, que seja  trabalhador, que te faça rir, que seja criativo, que seja inteligente, que goste das mesmas coisas que tu. Há todo um estereótipo de homem ideal e, estando tantos anos solteira, eu não podia falhar. Também ouvi os mil e um truques para manter uma relação. Resumidamente, os pontos mais comuns eram os da comunicação e da rotina, sendo que a falta da primeira e o excesso da segunda eram problemas fatais, que levavam a um único desfecho, o fim.

 

Quando se está tanto tempo com esse estado civil também se passa muito tempo sozinha. Depois dos 30, por mais amigos que que se tenham, por mais vida social que se viva, há mais tempo para tudo. Para socializar, para dormir, para ver televisão, para estar sozinha. Agora que o meu estado civil mudou, vejo esses tempos como momentos em que o tempo dava para tudo. Para a vida social, para ler, para escrever, para estar sozinha quando me apetecesse. O tempo esticava.

 

Tenho a sorte e o azar de ter encontrado alguém com quem não há, nunca, dois dias iguais. Não há horários, o trabalho (dele) é variado, criatividade e inteligência, esses requisitos de que me falavam, não falham. Dou por mim a desejar a tão malfadada rotina e percebo, então, que a rotina de que me falavam não era literal. Sem a ter, tenho as mesmas queixas. O que parece ser fatal numa relação não são os dias iguais. São as obrigações que acabam por ser prioritárias na nossa vida. Que nos consomem todas as energias e todo o nosso tempo. Ou grande parte dele.

“A que horas chegas?” é a maior constante nas nossas vidas. A pergunta que faço diariamente. A resposta varia e a sua veracidade também. Porque há sempre qualquer coisa. Um e-mail urgente que chegou, uma chamada que tinha que atender, uma alteração que o cliente pediu. A tecnologia a separar na mesma medida que nos une.

 

São muitos os dias em que janto sozinha. Este ano, não estávamos juntos no dia em que fiz anos, não jantámos no dia dos namorados. As datas passam, as férias são trocadas, os fins-de-semana são uma incógnita.

 

Será este um dos muitos desafios das relações com os novos modelos de trabalho? Casais sem tempo de se fartarem um do outro, mas fartos de estar sozinhos?

 

Para além de dar por mim a desejar saber a que horas ele chega, dou por mim a desejar que fosse bem cedinho. Para passarmos mais tempo juntos, mas também para que eu durma mais.

Sou daquelas pessoas que funciona bem de manhã, depois de umas 8 horas de sono seguido e bem dormido. Ao contrário de muita gente, deitar-me tarde e acordar tarde não funciona para mim. Sinto-me sem energia, pesada, pouco produtiva e ainda menos criativa. Fico com dores de cabeça, rezingona, respondona. Sinto que deixei de ser dona do meu tempo.

 

Por isso, à laia do que me fizeram a mim, deixo o conselho àqueles que ainda vão a tempo. Escolham bem. Não interessa se ouvem a mesma canção, como diz o outro, escolham alguém que dorme à mesma hora.

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