Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Rebeubeu, Pardais ao ninho

Rebeubeu, Pardais ao ninho

Fevereiro 14, 2020

sharon-mccutcheon-eMP4sYPJ9x0-unsplash.jpg

Hoje, dia dos namorados e, coincidentemente, aniversário da primeira noite que passámos nesta casa, foi o dia em que eu percebi: já não há volta a dar.

Nunca tivemos a conversa sobre viver juntos. Aconteceu. Fiquei uma noite aqui, uma noite ali, até repararmos que eram já muitas noites de seguida e que surgia agora a necessidade de lavar roupa. Necessidade essa que nos levou a misturar cuecas, peúgas e soutiens num tambor da máquina que se encontra ao fundo da cozinha desta casa.

O João já lá tinha vivido vários anos. Com outra pessoa, antes de mim. Talvez por isso, talvez pelos muitos vestígios dessa presença na casa, dormir ali nunca me deu a segurança que senti hoje: já não há volta a dar.

O João foi um dos muitos contemplados com uma carta do senhorio que, por outras palavras, informava que este queria melhor rentabilizar o seu bem escasso: uma habitação em Lisboa. Já eu, era, e sou, já proprietária duma casa, fora de Lisboa e que, automaticamente, implica uma carga mensal muito menor. Decidimos mudar. Sempre quis voltar para esta casa, não desde que estamos juntos, mas desde que fui viver para o estrangeiro, há 9 anos.  Talvez por isso e pelo facto de não ter havido ali nunca nenhum coabitante que integrasse outro par amoroso que não o nosso, acho que esperávamos os dois que fosse nesse momento, da decisão ou da mudança, que eu percebesse; já não há volta a dar.

Foi hoje, dia dos namorados e, coincidentemente, no aniversário da primeira noite que passámos ali que, enquanto corria pela casa, já atrasada, a despachar-me para o trabalho que olhei de soslaio para a única das 137 caixas que o João já preparou para as mudanças. Uma caixa com muitos, mas apenas alguns dos muitos livros que temos. Os que estavam na estante ao canto da divisão a que chamamos escritório, mas que usamos, sobretudo, para estender roupa. Ficam a faltar os livros na estante igual que se encontra na entrada da casa, os livros que pusemos em cima da sapateira, os livros que estão em cima da cómoda no quarto, os livros nas mesas de cabeceira e os livros espalhados algures pela sala.

Olhei para essa caixa, com uma tão pequena parte dos nossos muitos livros e percebi: já não há volta a dar. Já não sei quais são os meus, quais são os dele, quais são os nossos.

Não consigo imaginar a dor de decidir quem fica com Saramago, quem leva Margareth Atwood. Não consigo imaginar a dor duma partilha de bens que se foram adquirindo numa vida que se adivinha comum. No nosso caso são os livros. Os dele, os meus e os nossos: já não há volta a dar.

 

 

Fevereiro 04, 2020

A0471162-2101-41E4-81E1-847D8EBD0E8B.jpeg

Em 2014 soube que havia um site chamado 100 happy days (100 dias felizes em inglês) que desafiava as pessoas a documentar a sua felicidade durante 100 dias seguidos. O processo era simples. Tirava-se uma foto de algo que, de alguma forma, representasse felicidade, publicava-se numa das muitas redes sociais disponíveis, como o Facebook, o Instagram ou o Twitter e identificava-se a iniciativa com o chamado hashtag #100happydays e contavam-se os dias tinham já passado desde que se tinha iniciado a experiência. 

No site podem ler-se todas as instruções e vantagens de fazer isto e, ainda, que 71% dos participantes desiste muito antes de completar os 100 dias. O que me levantou a questão, será a falta de disciplina que impede tantas pessoas de terminarem a tarefa ou será assim tão difícil ser-se feliz durante 100 dias seguidos? Abracei a experiência sem objectivo e sem grandes expectativas, só a vontade de não ser uma estatística.

Durante 100 dias documentei momentos felizes. Momento com amigos, momentos com patos, momentos em que vi paisagens bonitas ou que decorei a casa com algo novo ou que experimentei uma nova receita, muitos momentos, mas mesmo muitos, com a minha cadela.

Não foram 100 dias fáceis. Umas vezes porque me esquecia de tirar a fotografia, outras porque os dias eram difíceis, outros porque sentia que utilizar a cadela para este efeito, era batota.

Percebi que, para este exercício, efectivamente, era necessária disciplina. Não apenas a disciplina de ter o trabalho de tirar a foto e publicá-la, mas a disciplina de procurar a felicidade.

Percebi que ser feliz não é só uma coisa que acontece. É uma coisa que, também, se pode fazer acontecer. Percebi que está nos detalhes. Nem sempre é um dia inteiro, nem sempre é uma coisa óbvia. Pode ser uma coisa tão simples como acender uma vela para um momento mais acolhedor ou permitirmo-nos comer a nossa comida preferida.

Percebi que a felicidade não está nos outros. Ter amigos ou namorado ou trabalho ajuda, mas não é condição necessária, mesmo que, muitas vezes, seja suficiente.

Percebi que um animal doméstico, no meu caso, um cão, pode ser uma imensa fonte de felicidade, por motivos que já se conhecem. Ser feliz por tê-los, por estarem ali devotos de forma incondicional, até pelo facto de dependerem e esperarem por nós, não é batota. É conexão e empatia.

Finalmente, percebi que é possível treinar o cérebro para procurar a oportunidade de ser feliz. Se ao início a coisa exigia algum esforço para encontrar esse pequeno detalhe que me enchia de prazer, com o tempo foi-se tornando mais natural e dei por mim a sentir uma maior apreciação por coisas do dia-a-dia, tantas vezes dadas por garantidas.

No meu caso, estes 100 dias, acabaram por coincidir com uma fase difícil, com alguns problemas que, na altura, não pareciam de fácil nem rápida resolução. Por isso, este compromisso acabou por se revelar ainda mais importante pela capacidade que teve para me manter à tona e positiva. Ainda assim, a grande conclusão foi ter percebido que não são os dias tristes que são perigosos, mas os dias assim-a-assim. Aqueles dias em que nada de importante acontece, em que obedecemos à rotina, entramos em piloto automático e, simplesmente, esquecemo-nos de ser feliz.

Janeiro 23, 2020

A que horas chegas?.jpg

Estive 15 anos solteira e quando se está tanto tempo sozinha todos querem ajudar, todos têm um conselho a dar. Talvez porque tenham receio que haja algum problema connosco, talvez porque veem ali uma oportunidade para que não cometamos os mesmos erros, talvez um pouco das duas coisas. Ouvi muitas coisas. Desde o que eu deveria ser, não ser, melhorar ou camuflar, até ao que devia procurar. Escolhe bem, diziam-me. Que seja fiel, que seja  trabalhador, que te faça rir, que seja criativo, que seja inteligente, que goste das mesmas coisas que tu. Há todo um estereótipo de homem ideal e, estando tantos anos solteira, eu não podia falhar. Também ouvi os mil e um truques para manter uma relação. Resumidamente, os pontos mais comuns eram os da comunicação e da rotina, sendo que a falta da primeira e o excesso da segunda eram problemas fatais, que levavam a um único desfecho, o fim.

 

Quando se está tanto tempo com esse estado civil também se passa muito tempo sozinha. Depois dos 30, por mais amigos que que se tenham, por mais vida social que se viva, há mais tempo para tudo. Para socializar, para dormir, para ver televisão, para estar sozinha. Agora que o meu estado civil mudou, vejo esses tempos como momentos em que o tempo dava para tudo. Para a vida social, para ler, para escrever, para estar sozinha quando me apetecesse. O tempo esticava.

 

Tenho a sorte e o azar de ter encontrado alguém com quem não há, nunca, dois dias iguais. Não há horários, o trabalho (dele) é variado, criatividade e inteligência, esses requisitos de que me falavam, não falham. Dou por mim a desejar a tão malfadada rotina e percebo, então, que a rotina de que me falavam não era literal. Sem a ter, tenho as mesmas queixas. O que parece ser fatal numa relação não são os dias iguais. São as obrigações que acabam por ser prioritárias na nossa vida. Que nos consomem todas as energias e todo o nosso tempo. Ou grande parte dele.

“A que horas chegas?” é a maior constante nas nossas vidas. A pergunta que faço diariamente. A resposta varia e a sua veracidade também. Porque há sempre qualquer coisa. Um e-mail urgente que chegou, uma chamada que tinha que atender, uma alteração que o cliente pediu. A tecnologia a separar na mesma medida que nos une.

 

São muitos os dias em que janto sozinha. Este ano, não estávamos juntos no dia em que fiz anos, não jantámos no dia dos namorados. As datas passam, as férias são trocadas, os fins-de-semana são uma incógnita.

 

Será este um dos muitos desafios das relações com os novos modelos de trabalho? Casais sem tempo de se fartarem um do outro, mas fartos de estar sozinhos?

 

Para além de dar por mim a desejar saber a que horas ele chega, dou por mim a desejar que fosse bem cedinho. Para passarmos mais tempo juntos, mas também para que eu durma mais.

Sou daquelas pessoas que funciona bem de manhã, depois de umas 8 horas de sono seguido e bem dormido. Ao contrário de muita gente, deitar-me tarde e acordar tarde não funciona para mim. Sinto-me sem energia, pesada, pouco produtiva e ainda menos criativa. Fico com dores de cabeça, rezingona, respondona. Sinto que deixei de ser dona do meu tempo.

 

Por isso, à laia do que me fizeram a mim, deixo o conselho àqueles que ainda vão a tempo. Escolham bem. Não interessa se ouvem a mesma canção, como diz o outro, escolham alguém que dorme à mesma hora.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D